• juliana rabelo

DESCARREGO

Atualizado: 6 de fev.

Degustação




A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las.

Santo Agostinho


Descarrego:

Ritual empregando banhos de ervas, orações e outros, para livrar uma pessoa de espíritos ou entidades sobrenaturais maléficas, bem como de energias deletérias.

Fonte: Wikipédia







PRÓLOGO


Expansão.

Uma inalação profunda.

Pronto.

Nasci.

Alguma dor conforme o ar rasga pela primeira vez os meus pulmões. Rasgar não é o verbo adequado, até porque ele entra para me abençoar com a vida, mas a primeira vez dói. Então, rasga mesmo.

Grito! Em alto e bom som, como todos nós fazemos em nosso primeiro momento de afirmação como seres humanos. Grito, para deixar claro que tenho voz. E que não estou nem um pouco satisfeita de ter saído da minha lagoa escura e tranquila onde só conhecia o barulho das batidas do coração de minha mãe. As enfermeiras me reviram de cima para baixo, um mal necessário, e eu grito com mais força. Parece não ter fim essa tortura… Finalmente sou enrolada em um cueiro de algodão e entregue a ela. Agora, sim! Eu reconheço esse coração. Ela me abraça com força e depois cochila exausta comigo no colo. Eu seguro com carinho o seu dedo mindinho, sentindo o cheiro do colostro que começa a sair dos seus peitos. Nesse momento, não preciso de mais nada.

Calma, calma, calma.

Preciso, sim.

Eu preciso de um nome.

Eu preciso de algo que garanta que sou quem sou, que a minha mãe é minha, que o meu pai é meu.

Por isso meu pai precisa providenciar o meu registro civil, antes mesmo de eu sair do hospital. Ele sai e volta com a enfermeira, depois de um tempo, mostrando orgulhoso à mamãe o meu primeiro documento.

Janaína da Silva Brasil. 13 de março de 1998. Cidadã brasileira.

Minhas primeiras posses. As únicas que ainda serão minhas até eu morrer. Tudo num pedaço pequeno de papel. Bonito.

Mas tem um detalhe relevante que esse papel só conta se você prestar bastante atenção. Eu nasci numa sexta-feira. Sexta-feira 13. Então, tenho mais um pertence que me foi dado no meu nascimento.

Um pertence que ninguém quer.

Um encosto de mau agouro.




1.

Olá, minha bela,


Até que enfim!

Parabéns pelos seus dezessete anos.

Você não imagina como estou satisfeito.

Eu já estava ficando cansado de te esperar.

Finalmente você cresceu!

Agora começa a nossa melhor fase.

Crianças não me interessam muito.

Elas têm uma dose de otimismo e esperança que me cansa.

Esquecem rapidamente o que acontece de ruim.

E vamos ser sinceros: eu gosto de que se lembrem.

A lembrança perpetua o sofrimento.

Mas isso não significa que te deixei crescer em paz

Você me ouviu, que eu sei.

Se lembra?

Soprei baixinho muitas vezes no seu ouvido.

E você ficava quietinha escutando.

O coração batendo acelerado.

O corpo magro tremendo de leve.

Você está presa e condenada.

Como todos os demais.

Esta é a sua sina.

Esta é a sua dor.

Não adianta tentar, não adianta sonhar.

Pare de desperdiçar energia.

Não tem nada para você em outro lugar.

Eu decidi o seu destino.

Sozinho.

Você já nasceu presa a ele.

Limitada.

Vigiada.

Marcada como gado.

Palavras. Foi assim que dominei você.

Só que não serei mais tão bonzinho.

A partir de agora, vou me divertir.

Por isso, primeiro quero te deixar achar que pode

Mas a verdade é que não há como você escapar de mim.

Você já me pertence.

Entendeu?

A gente se vê daqui a pouco.

Sempre seu.


2.


A família toda está reunida aqui no barraco. Eu, Benedita, Maria e Antônio José. Minha mãe e meu pai. Um refrigerante Guaraná Jesus de dois litros e um bolo de brigadeiro. Hoje eu faço dezessete anos. Na minha modesta opinião: E daí? Não é grande coisa. Só um dia ordinário numa vida ordinária. Meu pai fez questão da festa, ainda que eu ache que não temos muito o que comemorar.

— Temos sim, Janaína. Temos que comemorar a vida. Estais morta? Não! Então, se comemora e pronto.

Otimista. Isso é o meu pai e o seu jeito de ver as coisas. Eu entendo o ponto de vista dele. Só que, quanto mais cresço, mais discordamos… Ando meio desenganada com a vida mesmo.

— Eu falo que essa menina está se tornando uma ingrata… Ninguém aguenta mais os teus hormônios, Janaína! Todo mundo sabe que a nossa vida tá difícil, tá ruim… Mas daqui a pouco quem sabe melhora?

Que meu pai seja otimista eu até entendo, porque ele é um ignorante. Ele ignora a verdade sobre mim. Agora, a minha mãe, não. Ela sabe de tudo. Então não tem como tentar me consolar dizendo que vai melhorar. Falar assim é quase um desaforo. Deve ser outra forma que ela escolheu de me provocar, isso sim. Desde que me lembro por gente, minha mãe faz questão de não me deixar esquecer da existência dele. Só ela reparou nesse detalhe do meu nascimento. E, sempre que pode, faz questão de jogar na minha cara todo o poder funesto que ele tem sobre mim. Agora ela vem falar em melhorar? Me poupe.

Não.

Não vai melhorar.

Vamos ser sinceros. Eu nasci marcada para andar sempre ladeira abaixo. Essa é a real.

Eu sei que na minha idade eu deveria ser diferente. Alegre e vibrante. Cheia de planos para o futuro! Bem… eu tenho planos. Planos de botar fogo nessa merda toda. Radical? Pode ser, mas fazer o quê? A culpa não é minha. Foi a vida que ele me deu que me fez assim.

Olho para a nossa casa e chego à conclusão de que não perderíamos muito em um incêndio devastador. São três cômodos no barraco. A cozinha, um banheiro e a sala—quarto onde tudo acontece. Dormimos em quatro colchões no chão, todos embolados. Tem um sofá verde de dois lugares no canto, mas ninguém quer dormir nele, não, pois as molas espetam o corpo. O dia nasce, recolhemos os colchões, colocamos tudo empilhado atrás do sofá e recomeçamos a luta. Comemos sentados no chão. A mesa é um baú de metal velho e azul que um patrão da minha mãe trouxe da África. É ótimo. Função dupla. Serve de mesa e guarda nossos travesseiros e lençóis quando o dia começa.

Resumo: colchões empilhados, um baú enferrujado azul, um sofá verde espetudo, uma televisão de tubo apoiada em um caixote de feira e as roupas dentro da caixa de papelão da TV. Dava um desenho bonito do tal de Van Gogh, aquele que a professora contou que era tão doido, que cortou a própria orelha. Sem problemas. Doido… mas pintava bonito. Olha só: “A sala”. Fica a dica, se houver algum pintor com falta de inspiração.

A casa é na alvenaria, que a coisa não está tão ruim assim. Está me ouvindo, seu traste? Nada de tábuas pobres e papelão molhado como já foi… Agora temos tijolos baianos. Mas a parede está só no reboco, é claro. Não dá para ganhar todas na vida.

Temos uma única decoração: uma imagem de Nossa Senhora, com o coração na mão e o rosto triste. Meus pais não são católicos, nem evangélicos. Não sei nem se eles acreditam em Deus… Mas a Compadecida é diferente, né? Todo mundo sabe que ela é a mãe de todos. No coração dela sempre cabe mais um. Especialmente aquele filho desgarrado que mais ninguém quer. Acho que é por isso que ela está triste. Seus filhos andam sendo maltratados pelo mundo, e a única coisa concreta que ela pode fazer é abrir o coração.

Como posso ter me esquecido dela?! Já sei o que vou pedir de presente de aniversário! Dezessete anos… Eu posso exagerar, não é?


Compadecida, por favor, tira ele de perto de mim. E, se nem você conseguir tirar, pelo menos me conceda a graça de não deixar ele chegar mais perto, que já me é de grande ajuda.


Faço uma prece silenciosa enquanto seguro com fé o escapulário que trago no pescoço. Foi um presente muito especial que recebi de minha avó Anita, em uma das suas visitas anuais. É de prata, mas ninguém sabe. Eu digo que é latão mesmo. Coloquei em um cordão de couro as duas imagens tão delicadamente gravadas. Troco o cordão todo ano. A corrente de prata original devolvi para a vovó, e pedi a ela que mantivesse guardada. Quando eu morar em um lugar onde eu tenha pelo menos uma gaveta só para mim, pego de volta.

Ela me deu quando fiz seis anos. Me olhou muito séria. E pediu:

— Estenda a mão, Janaína. Tenho um presente para você. Hoje você faz seis anos. Você não sabe, mas isso é uma conquista e tanto. Nenhum dos meus irmãos chegou nessa sua idade. Todos foram levados antes pela fome e pela seca.

Ofereci a ela a minha mão, com certo medo. Vovó sempre fica muito emotiva quando fala do sertão e da vida que tinha lá até fugir para o agreste.

— Minha mãe demorou a entender. Mas eu não cometerei o mesmo erro. Uma criança que venha nascida entre nós, no meio dessa desgraceira, só vinga se tiver ao seu lado uma proteção muito forte. Não se iluda, filha, o coisa ruim sempre bota os homens dele para trabalhar. Por isso nós colocamos as nossas mulheres. Que a Compadecida ande sempre ao seu lado, e lhe conceda a sua proteção.

Fez um sinal da cruz na minha testa, nos meus olhos e na minha boca, jogou a mão para trás do ombro, como quem despeja fora o indesejável, e me deu um pequeno papelzinho pardo todo dobradinho, onde estava o escapulário.

Coloquei a preciosidade no pescoço no mesmo instante, sem nenhuma hesitação, e desde então a tiro o mínimo possível. Mesmo tão pequena, eu não precisava que ninguém me convencesse da necessidade de proteção. Eu não sou surda. Então já o ouvia com frequência ao meu ouvido, sussurrando. Pode ser que tenha sido apenas ilusão minha, mas, desde que ela anda aqui pendurada em mim, não o ouço mais falar. Ficou mudinho o peste. Também, só faltava ele ter coragem de ficar soprando besteira bem no ouvido de Nossa Senhora.


Para Nala,

que me ensinou a ver o invisível.

e

Para José Henrique, Luís Cláudio e Manoela,

que me abriram as portas por onde eu precisei passar.


Insígnia Editorial

Gênero: Ficção Juvenil/YA

ISBN: 978-65-996157-7-1

Formato: 15,5 x 23 cm Miolo: Papel pólen

Total de páginas: 144

Preço de capa: R$ 39,90

Peso médio: 260 gramas Lançamento: fevereiro de 2022

Contato: Felipe Colbert Tel./WhatsApp: +55 11 99608-1800 contato@insigniaeditorial.com.br

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